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· 4 min de leitura

Por que pessoas inteligentes não se entendem

Por Ed Freitas

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A maldição do conhecimento

Você já explicou algo que parecia perfeitamente claro e recebeu apenas uma expressão de dúvida?

Você explica de novo, talvez com um pouco mais de detalhes, mas a outra pessoa continua sem entender direito. Com o tempo, começa a se perguntar como algo tão óbvio pode ser tão difícil de compreender.

O problema talvez não seja a inteligência da outra pessoa nem sua disposição para ouvir. Pode ser simplesmente algo chamado maldição do conhecimento.

A maldição do conhecimento é um viés cognitivo que dificulta lembrar como era antes de entendermos algo. Depois que conhecemos bem um assunto, tendemos a supor que as outras pessoas sabem mais sobre ele do que realmente sabem.

Em outras palavras, depois que sabemos alguma coisa, torna-se surpreendentemente difícil imaginar não sabê-la.

O experimento de quem batucava e quem ouvia

Um dos melhores exemplos da maldição do conhecimento vem de um experimento simples com músicas.

As pessoas foram divididas em dois grupos: quem batucava e quem ouvia. O primeiro grupo escolhia músicas conhecidas, como Parabéns a Você, e batucava o ritmo em uma mesa. Os ouvintes precisavam identificar a música apenas pelas batidas.

Antes do experimento, quem batucava esperava que os ouvintes identificassem corretamente cerca de metade das músicas.

Na realidade, os ouvintes identificaram apenas cerca de 2,5% delas.

A razão dessa diferença é bastante simples. Enquanto batucavam, as pessoas ouviam a música completa na própria cabeça. Ouviam a melodia, o ritmo e talvez até a letra. Para elas, a resposta parecia óbvia.

Os ouvintes, porém, ouviam apenas uma sequência de batidas desconexas em uma mesa.

Quem batucava não conseguia retirar mentalmente a informação que já possuía. Essas pessoas ouviam uma música, enquanto todos os outros ouviam batidas.

Como isso acontece no trabalho

A mesma coisa acontece o tempo todo no ambiente de trabalho.

Um gestor pede a um novo funcionário que siga o “processo habitual”, esquecendo que ele nunca viu esse processo antes.

Um especialista técnico explica um problema usando siglas perfeitamente familiares à equipe de engenharia, mas que significam muito pouco para o cliente.

Um funcionário experiente omite várias etapas de uma explicação porque elas se tornaram automáticas após anos de experiência.

Um líder anuncia uma nova estratégia e presume que todos entendem sua importância porque a equipe de liderança já passou vários meses discutindo o assunto.

Em cada um desses casos, quem fala ouve a música inteira. Todos os outros ouvem apenas as batidas.

Isso pode criar frustração desnecessária dos dois lados. Quem fala acredita que a mensagem foi perfeitamente clara, enquanto quem ouve pode se sentir confuso, excluído ou receoso de fazer uma pergunta aparentemente “óbvia”.

A experiência pode dificultar a comunicação

Muitas vezes presumimos que a pessoa que mais sabe sobre um assunto será automaticamente a melhor para explicá-lo. Nem sempre é assim.

À medida que ganhamos experiência, começamos a combinar várias ideias em uma única etapa mental. Deixamos de perceber as conexões individuais porque elas se tornaram automáticas para nós.

Um iniciante ainda não consegue dar esses saltos.

Isso não significa que especialistas sejam maus comunicadores. Significa apenas que a experiência cria um ponto cego que bons comunicadores precisam administrar de forma consciente.

Quanto mais experientes nos tornamos, mais importante é reconstruir o caminho que nos levou àquela compreensão e evitar presumir que todos partiram do mesmo lugar.

Quebrando a maldição

Uma mudança útil é parar de perguntar: “Isso faz sentido?”.

A maioria das pessoas dirá que sim, mesmo quando a resposta verdadeira for “não totalmente”, “acho que sim” ou “não quero parecer bobo por perguntar”.

Em vez disso, faça perguntas como: “Como você explicaria isso a outra pessoa?”, “Qual você acha que é o próximo passo?” ou “Que parte ainda não está clara?”.

Essas perguntas testam a mensagem, e não a pessoa.

Também ajuda oferecer contexto antes das instruções. Não explique apenas o que alguém precisa fazer. Explique por que isso importa, como seria um resultado bem-sucedido e como o trabalho dessa pessoa se conecta ao objetivo maior.

Por fim, preste atenção a expressões como “obviamente”, “simplesmente” e “como todos sabem”. Se algo fosse realmente óbvio para todos, provavelmente não precisaria ser explicado.

Uma boa comunicação não é medida pela clareza que algo tem dentro da nossa cabeça. Ela é medida pelo que a outra pessoa consegue entender e colocar em prática.

Então, da próxima vez que alguém não entender sua explicação, não se limite a repeti-la mais alto ou acrescentar detalhes técnicos. Pare e pergunte a si mesmo: o que eu consigo ouvir na minha cabeça que essa pessoa não consegue?

Porque a comunicação eficaz não consiste em bater mais forte. Consiste em ajudar a outra pessoa a ouvir a música.

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